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4º Festival de Prosa e Poesia de Sofia
2º LUGAR

Premiação

Me$ 800,00

Medalha de Prata
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Lucas von Alberdeen

O ENTERRO DE ISOLINA

Acordei com o som da chuva torrencial dizendo-me “bom dia”. O velho telefone preto gritava o ring-ring arrastado e estridente rente ao meu ouvido. Ainda atordoado de sono tentava localizar o gancho do aparelho para atendê-lo. Nem sei que horas eram.

O dia escurecera-se devido à tormenta que precipitava das nuvens negras daquela manhã. Um e outro clarão relampejava como flashes, iluminando, mesmo mui rapidamente, o breu matutino. O telefone continuava a reclamar atenção e minhas mãos sonolentas tateavam o que havia sobre o criado-mudo até achar a escandalosa caixa preta. Senti-o vibrar. Como se estivesse nocauteado ou pisoteado por uma manada, sentei na cama e atendi-o. Ao desligar, percebi as horas, pouco mais das oito.

Quando bati o gancho no telefone, senti uma coceira nos meus dedos. Meus olhos embriagados, embasados de sono, forcei-os até fixar a imagem: uma borboleta preta. Bateu assas e voou, para um canto escuro e não pude mais ver. “Isolina morreu”, disse-me a voz ao telefone.

Levei certo tempo a compreender, talvez pelo fato de meu cérebro estar acordando aos poucos ou pelo impacto da notícia. Minutos depois, acometeu-me o choque. Isolina estava morta. A boa Isolina estava morta. A querida Isolina estava morta. A velha Isolina estava morta. A preta Isolina estava morta. A gorda Isolina estava morta. Minha querida e boa preta velha Isolina estava morta. Chorei.

Chorei como uma criança que perde a mãe, como um velho que enviúva, como quem perde a avó velhinha que assa deliciosos bolos de baunilha com leite retirado da vaca minutos antes. Desde que nasci Isolina já trabalhava na nossa casa. Cozinhava, limpava, cuidava da gente, engomava nossas roupas, contava-nos histórias à luz do lampião e fazia biscoitos de chocolate e suco de limão para o nosso lanche. Ela alimentava as galinhas, dava de comer aos porcos e às vezes eu a ajudava a retirar água do poço.

Isolina ensinou-me a rezar: uma ave-maria para cada conta de seu rosário branco. Ela sempre foi velha, gorda e preta. Desde que eu nasci. Sempre velha, gorda e plácida, cozinhando no fogão à lenha. O enterro. Tinha de ir ao enterro. Às dez horas! Dez horas, meu Deus! São quase duas horas de viagem até a chácara e já são quase oito e meia. O enterro. Não posso perder o enterro. Mal e mal vesti meu terno azul-marinho peguei um pão na cozinha e fui à garagem. Abri a porta do carro e outra borboleta negra bateu assas. Num vôo cambaleante, ora cá, ora lá, saiu de dentro do veículo, pousou na lapela do meu paletó e no instante seguinte fugiu.

Chovia, chovia muito... impossível enxergar mais que um metro à frente. Mas precisava chegar a tempo. Por Isolina. Tanto mais chegava à minha cidade natal, ficava mais difícil dirigir. Estrada de terra, o barro espirava no pára-brisa. Acelerei bastante o carro, não podia perder o enterro de Isolina. Parei o carro em frente à capela onde ela estava sendo velada. Ao descer, atolei meu pé até o joelho no barro. O guarda-chuva não conseguia conter a quantidade de água que caía. Molhei-me todo; a chuva escorria pela minha face, embasava meus olhos.

Entrei na capela, Isolina não estava lá. Só vi as quatro velas já apagadas, os pedestais onde seu caixão foi colocado e uma borboleta preta, na vastidão branca da parede onde havia pregado um crucifixo.

“Não compareceu ninguém da família. Resolveram fazer o enterro mais cedo. O cortejo saiu há pouco”, disse-me a funcionária da capela.

Sim, ela abandonara sua família por nós; agora estava só. Desesperado, corri na chuva, para o cemitério. Não era longe dali. Corri, corri, corri, feito um louco, uma criança perdida. Esqueci a chuva, esqueci o barro, esqueci as pedras da estrada de terra. Queria apenas chegar ao cemitério, ver pela última vez Isolina. Zanzei atarantado pelas ruelas do cemitério à procura do túmulo de Isolina. Flores. Esqueci as flores. Sequer uma margarida murcha segurava em minhas mãos. Não trouxe flores para pôr em cima do caixão de Isolina.

Puxei do vaso de um túmulo recém fechado um maço de flores: dálias, crisântemos e uma rosa branca. Avistei de longe o coveiro e o carrinho com o caixão de Isolina. Corri, quase tropeçando em minhas pernas. O coveiro cobria-se da chuva com uma capa preta. Nada protegia o caixão de Isolina, mas não sei como, não chovia sobre ele.

Não chovia sequer um pinguinho sobre o caixão com detalhes entalhados e um crucifixo de bronze. Pelo contrário, sobre seu caixão projetava-se um feixe dourado de luz, um raio de sol rompendo as nuvens cor de chumbo.

“Quero vê-la”, pedi ao coveiro. Ele apenas se afastou um pouco de mim. Queria ver seu rosto rechonchudo, sua pele negra, seu semblante plácido. Queria ver a boa e velha Isolina pela última vez. Desatarraxei os seis parafusos de seu caixão nervosamente. Empurrei a tampa com certa força, derrubando-a.

Tão logo ela se espatifou no chão, borboletas pretas, milhares delas, ganharam o céu. Voaram, num sublime bater de asas. Borboletas pretas, luzidias pelo facho de sol que iluminava suas asas. Borboletas médias, pequenas, grandes, minúsculas. Voaram em direção ao sol. No caixão ficou apenas o terço branco de Isolina.

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