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4º Festival de Prosa e Poesia de Sofia
3º LUGAR

Premiação

Me$ 500,00

Medalha de Bronze
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Lucas von Alberdeen

UM SER HUMANO

Jonas é a pessoa mais enigmática que eu conheço. Olha o mundo ressabiado, mantendo ressalva, talvez para evitar que alguém o prejudique. Age calculando seus atos, cada passo só é dado depois de que todas as conseqüências possíveis foram avaliadas. Mas nada dessa virtude o faz um homem de opinião, nada o dá características de precisão no seu falar. Talvez ele nem queira sugerir essa impressão, talvez ele prefira a ambigüidade, o direito de ser várias almas no mesmo corpo.

Talvez ele nem age por conta própria, apenas segue sua intuição ou cumpre os traçados impostos por outrem. Talvez ele nem os siga, apenas fica parado no centro enxergando cada caminho que não tomou. Talvez ele nem ande sozinho, talvez ele é levado pelos que tomam sua mão e o guiam por seus rumos. Talvez nem o guiem porque talvez ele nem tenha amigos. Talvez ele tenha muitos amigos, que como amigos ora são amigos ora não valem o pó que pisam. Talvez eles são também seus inimigos. Talvez os que estão a sua volta sejam sua família, ou não passam de meros desconhecidos, quem sabe? Talvez nem ele sabe que elas são seres humanos. Talvez ele nem percebeu que está no mundo, ou pode ser que ele ainda vive em seus devaneios. Talvez ele seja a pessoa mais importante do mundo, ou um dos seis bilhões de humanos. Talvez, para ele, o mundo não existe. Nada existe! Talvez dia e noite são vida e morte, quem sabe, meras divisões do tempo. Talvez Jonas tem mil anos, talvez ele nem completou o primeiro. Talvez ele já viveu muitas vidas ou então ainda não viveu esta. Talvez ninguém vive suas vidas. Talvez ninguém tem o direito de vivê-las.

Talvez Jonas seja um homem maduro, talvez um velho ranzinza, talvez uma amável criança, não sei. Como também não sei se ele é alto ou baixo, gordo ou magro, feio ou bonito, bom ou ruim. Talvez ele seja uma mistura de todas as virtudes e de todos os defeitos do ser humano. Talvez ele seja uma pessoa fria, calculista, meticuloso, inerte diante do mundo que passa e o deixa, ou a pessoa mais calorosa que conheci, cuja luta principal seja acompanhar o mundo. Talvez ele seja a melhor alma dentre as que vagam por aqui, ou talvez nem alma ele tem. Às vezes não é nada mais que uma máquina do mundo mecanizado. Pode ser! Tudo pode ser... Talvez seu olhar reservado nem olhe mais, desistiu de olhar, talvez nem olhos ele tem. Mas de vez em quando ele tudo olha, é o grande irmão.

Talvez seu olhar fale por sua boca, talvez de seus olhos ecoam as mais belas e sábias palavras destrutivas. Talvez olhos e boca sejam a mesma coisa. Talvez nem boca ele tem, talvez não fala, não grita, não geme, não sussurra, não elogia, não critica, talvez não. Acho que o mundo faz por ele. Talvez ele esteja preso, impedido de falar. Talvez ele seja prisioneiro de sua alma. Talvez cárcere de uma prisão que só existe para ele.

Talvez tenha filhos, talvez ele seja filho do filho de seu próprio filho. Talvez ele é casado, ele tem amante, construiu família. Talvez sua única família seja ele mesmo. Sua casa pode ser uma mansão ou um mísero casebre no mais reles morro da cidade. Quem sabe sua casa não é seu próprio corpo. Quem sabe Jonas, com tanto dinheiro, posses, dólares e jóias, seja a pessoa mais pobre dentre os pobres. Talvez ele é o presidente, o engenheiro, o professor, o jornalista, o vendedor, o feirante, um edil, ou o moribundo na fila do hospital. Não sei, mas será que ele não é ele mesmo? Talvez ele anda elegante, engravatado, ou de jeans, ou comum, ou nu. Talvez sua pele o cubra das mazelas, talvez ela proteja o mundo dos males. Ou nem pele tenha.

Talvez sua história conte um livro, um belo romance, um pequeno conto, uma vasta enciclopédia, ou uma cômica crônica, ou até uma rápida nota de rodapé na capa de uma tribuna. Talvez sua vida não valha uma pincelada de tinta, talvez ela seja tão reles ou medíocre quanto a minha. Talvez ele seja um homem cativante, que marcou o mundo, que viveu intensamente, emocionou e se emocionou. Talvez ele seja um ser único que o mundo jamais verá igual. Talvez ele seja tão igual quão as pessoas a minha volta. Talvez ele nem exista, só conflite comigo. Talvez ele seja somente um personagem que me pediu uma história, que me impediu de dormir, de viver até que a pusesse num papel, que me atormentou e me dominou. Talvez ele seja eu mesmo. Ou talvez ele seja apenas um ser humano!

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